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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Nós estamos no controle sempre, mesmo diante da morte



Uma pessoa imersa na mais absoluta impotência, atirada sobre uma cama e submetida a um balão de oxigênio demonstra que se pode sempre ser mestre do momento, mesmo quando estamos aparentemente sem opções nem poderes para barganhar com a vida.
As pessoas insistem  numa dimensão de Amor tão longínqua da realidade de Verdade. 
Não é preciso escrever livros para se salvar.

 Não é preciso sequer estar em domínio pleno de qualquer função vital; não são necessários grandes blocos de tempo: basta um único momento.


Não é nem ao menos necessária a troca com alguém conhecido, sendo suficiente um único e verdadeiro encontro. Não são necessárias ideias, técnicas ou razão. Basta vibrar na sintonia humana e evocar no outro uma mesma manifestação. Neste caldeirão onde a experiência de ser é comum a todos que trocam, não há mais percepção de si mesmo que faça sentido na ideia de que alguém se encerre em si mesmo.

O eu no outro e o outro no eu são explicações para esta eterna saudade de algo que nos faz falta; o outro, aquele/aquilo que não sou, traz em si, por sua vez, algo que também não é parte de si próprio.

Não há melhor forma de beijar a morte do que reconhecer o outro — o que não somos e onde não existimos nós mesmos.

O mesmo 1/7 de morte, de falta, de não ser é o material do qual é feito o outro dentro de nós.

A morte é que nos faz sociáveis. Ela é que nos faz amar o outro.
O outro é a forma mais real que possuímos de experimentar a morte, o não ser. Conseguir olhar o outro em sua alteridade é reconhecê-lo não em relação a nós ou como sendo nós mesmos.

Ao vê-lo como tal, estamos diante da morte sem medo, sem desespero.
É como se estivéssemos num mundo invertido, onde ter saudades do outro não nos faz reconhecê-lo e nos leva ao desespero.

Por outro lado, ter saudades de nós mesmos nos encaminha ao outro; no outro nos encontramos salvos de "sermos apenas em nós mesmos".

Em nenhum momento devemos nos permitir mergulhar dentro de nós mesmos num comportamento eremita, o que representa em si o desespero.

Todo aquele que é vivo, que inicia sua caminhada pela vida ao que está no limiar do fim deste processo, precisa do outro.

É comum que pessoas gravemente enfermas experimentem ao enfrentar as questões de sua finitude um desejo de se afastar dos outros.

Fazem isto movida pelo inconformismo de que os outros lhe relembram constantemente tudo que estão por perder.

A vida do outro que continua, ou as oportunidades do outro que continuam mesmo depois de nossa morte são quase que insuportáveis.

Cada risada do outro, cada olhar do outro é vivido como uma bofetada. E nem sequer é preciso tratar-se de um ser humano.
 
Cada vez que o sol nasce é uma bofetada, cada barulho de vento ou gosto apreciado é uma bofetada. Ou seja, tudo aquilo que não é parte de nós e que "não se extinguirá" quando nós nos extinguirmos, nos agride.

Esta é a atitude do desespero, que lê no outro a morte como um escuro onde não estamos.
A incapacidade de reconhecer a si mesmo no outro é desespero.

A visão que, ao contrário, vê no outro parte de si mesma, salva.  A vida é definida como uma infinidade de oportunidades que nos permitem realizar este mesmo fenômeno de auto reconhecimento nos outros, sejam pessoas ou coisas.
 
A cada um destes reconhecimentos nos certificamos deste pequeno elemento de exterioridade que possuímos e somos tomados pelo sentimento da esperança.
Estes encontros são o que os mestres chamavam de reconhecimento das fagulhas divinas espalhadas pelo mundo.

Cada vez que descobrimos a nós mesmos fora de nós, grande é a euforia de saber-nos maiores do que imaginávamos ser.



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Muito obrigado! 
Fátima Jacinto
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